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A tentativa de ressurgir da China

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China
Foto: Pixabay

O ano de 2022 começou com a invasão russa na Ucrânia, fato que acabou direcionando todas as atenções dos EUA e de países europeus para o governo de Vladimir Putin. Durante os primeiros meses deste ano, a China, que até então vinha sendo o centro do noticiário já por alguns anos, foi relegada às páginas internas de vários jornais pelo mundo. À medida que comece a existir (infelizmente) uma consciência de “normalização” em relação ao que está ocorrendo na Ucrânia, a China deve voltar às manchetes, porém de uma forma muito diferente daquela do ano passado.

Para o governo de Joe Biden, a China nunca deixou de ser uma prioridade em política externa. Mais especificamente, os Estados Unidos lidaram com a contenção da China no Indo-Pacífico e em outras partes do mundo, onde o governo de Xi Jinping conquistou duradoura influência.

Entretanto, de uma forma geral, o ano de 2022 vem sendo particularmente difícil para Xi Jinping por algumas razões:

  1. O avanço da Covid no país vem levando o governo comunista a adotar uma política de “Covid-zero”. Muitas cidades, incluindo Shanghai e partes de Pequim, se encontram em lockdown, afetando pesadamente a recuperação econômica, a atividade industrial, o turismo e a conformidade social.
  2. O apoio dado por Xi Jinping à invasão russa na Ucrânia afastou ainda mais a China da comunidade internacional. Naturalmente, isso afetará a estratégia chinesa de atração de investimentos, como também suas tentativas de tentar melhorar a imagem internacional após o início da pandemia. Além disso, a China começa a perceber que alguns dos pesados impactos das sanções contra a Rússia poderiam ser replicados em parte contra a própria China, caso Xi Jinping levasse adiante o processo de invasão a Taiwan.
  3. A economia chinesa está sofrendo com o descontrole interno causado pela pandemia, assim como pela crise econômica global. No último ano, as vendas de varejo caíram 11%, enquanto a produção industrial caiu 3%. O desemprego vem aumentando mês após mês e, mesmo com medidas de afrouxamento fiscal, o Banco Central Chinês não está conseguindo estimular o consumo.
  4. O Quad, acordo militar naval entre EUA, Austrália, Índia e Japão, iniciou um processo via satélite para monitorar ações de pescas ilegais de embarcações chinesas no Índico e no Pacífico. Desde o início do ano, a China vem estocando alimentos de uma forma nunca antes vista.

 

No Peru, as importações de anchovas quintuplicaram nos primeiros meses de 2022 em comparação com o ano anterior. Estimativas dão conta que a China possui estoques de 18 meses em grãos e de 12 meses em medicamentos. Mesmo com a especulação de que isso poderia ser uma preparação para retaliações geradas em caso de uma invasão a Taiwan, a tendência é que seja uma preparação para tempos econômicos sombrios, de baixo crescimento.

Mesmo com esse pacote de dificuldades, a China vem traçando algumas estratégias de contra-ataque. Um novo planejamento está sendo formulado para a Rota da Seda, visando um aumento de linhas de crédito e investimentos na América Latina, África e Ásia Central. Um novo plano agrícola também está prestes a ser lançado, visando diminuir a dependência chinesa de grãos brasileiros, argentinos e de outras partes do mundo. O volume de capital requerido para bancos provinciais deixarem como lastro no Banco Central Chinês diminuiu, com o intuito de gerar mais liquidez e estimular mais crédito. No campo militar, o governo chinês está acelerando a produção de mísseis supersônicos, ogivas nucleares e navios de guerra.

Pequim parece entender que o mundo está entrando em uma nova era. A cooperação quase que fraterna, gerida pelo comércio internacional, está fadada a ser pausada por um instante. O nacionalismo que vimos na Rússia, Hungria e em outros países do mundo também está presente na China. Xi Jinping será reconduzido para um terceiro mandato no fim de 2022 e, ao invés de fomentar sua liderança pelo comércio, começa a se posicionar para consolidar respeito internacional pelo poderio militar.

A China foi o grande tema das eleições australianas na última semana. A vitória do trabalhista Anthony Albanese, outrora simpático aos chineses, marca um arrefecimento da postura australiana em relação à China. A Austrália também está fortalecendo sua marinha e enxerga com preocupação as alianças desenvolvidas pela China com Ilhas Salomão, Kiribati e outras ilhas do Pacífico. Num eventual contexto de guerra, ter acesso e possível controle dessas ilhas representam uma enorme vantagem estratégica na região.

Os EUA estão com dificuldades em traçar uma estratégia de contenção ao perigo que enxergam em relação aos chineses. A Cúpula das Américas, que está prevista para se iniciar no dia 06 de junho, em Los Angeles, está esvaziada e possivelmente acontecerá sem a presença de importantes países. Isso exemplifica uma das dificuldades clássicas dos americanos em engajarem os vizinhos do sul em pautas que não giram em torno de narcotráfico, imigração ilegal, lavagem de dinheiro, corrupção etc. Sem uma narrativa de geração de oportunidades, negócios e cooperação, os americanos seguirão vendo países da América Latina cada vez mais alinhados com a China do que com os EUA.

Quando não há respostas para perguntas mal feitas, países recorrem ao fortalecimento militar para firmar suas posições. A Rússia vem estimulando isso na Alemanha, França, Romênia, Bulgária, Polônia, Finlândia e Suécia. A China estimula isso na Austrália, Índia, Japão e, obviamente, nos EUA. A cooperação comercial passa a ser vista com desconfiança, enquanto o nacionalismo exalta a distância e abandona a busca pela aproximação. Quando não temos informações suficientes sobre as intenções do outro, nossas especulações tendem a ser as piores possíveis. Nesse contexto a humanidade caminha para um mundo pós-pandêmico onde a individualidade ganha espaço nunca tão dimensionado.

 

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